
A família de Gleici Keli Geraldo de Souza, morta com 21 facadas pelo próprio companheiro em junho de 2025, divulgou imagens inéditas das câmeras de segurança da residência para contestar a versão da defesa de que o crime teria sido cometido durante um surto psicótico. O advogado Rodrigo Pouso Miranda, que representa a família como assistente de acusação, afirma que os registros mostram planejamento e consciência dos atos .
“Quem viu as imagens já sabe. Não foi loucura. Foi plano. As câmeras registraram tudo. Não foi surto. Foi escolha”, escreveu o advogado nas redes sociais .
O caso chocou a cidade de Lucas do Rio Verde, a 354 km de Cuiabá. No dia 24 de junho de 2025, Gleici, de 42 anos, cabeleireira, terapeuta capilar e empresária, foi morta enquanto dormia ao lado da filha do casal, M.B.F., que na época tinha 7 anos. A menina também foi esfaqueada oito vezes e sobreviveu após 22 dias internada em uma UTI .
As gravações, divulgadas no último domingo (6), documentam uma sequência de eventos que antecederam o crime. Segundo o advogado, as câmeras registraram discussões entre o casal nos dias anteriores ao assassinato, todas relacionadas a questões financeiras. Entre os assuntos mencionados estavam a compra de uma botina, uma antena Starlink e uma dívida de R$ 2,2 mil .
Em um dos trechos, Gleici aparece implorando: “Dani, pelo amor de Deus”. Em outra gravação, ela diz: “Já chega de trauma” .
O advogado afirma que, dois dias antes do crime, Daniel teria ameaçado matar a esposa e a filha durante uma conversa com a própria irmã. O alerta chegou a Gleici por meio de uma mensagem da cunhada. “Cuh, sem o Dani ver… a hora que ele for dormir, esconde todas as facas da área de festa, não sei… senti algo ruim!”, escreveu a irmã do acusado . Daniel teria descoberto o aviso e demonstrado irritação por ter sido informado .
Na manhã do crime, as câmeras mostram Daniel circulando pela casa enquanto Gleici e a filha ainda dormiam. Por volta das 6h55, ele se dirige à cozinha, pega uma faca e segue em direção ao quarto . Momentos depois, retorna com as mãos e os braços cobertos de sangue .
Em seguida, ele entra no quarto da filha e também ataca a menina. As imagens registram a criança gritando “pai, pai” durante a agressão . A filha mais velha de Gleici, Caroline Fernandes, relatou que o padrasto “sentou na cama, acordou-a, pediu desculpas, abraçou e desferiu 4 facadas nas costas e outras 4 no peito” .
A condição mental de Daniel Bennemann Frasson tornou-se o principal ponto de disputa no processo. Um primeiro laudo da Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec-MT), divulgado em novembro de 2025, indicou que o engenheiro agrônomo poderia ser considerado inimputável, ou seja, sem capacidade de compreender o caráter ilícito do ato no momento do crime .
O Ministério Público contestou o resultado, apontando falhas metodológicas, como a ausência de exames toxicológicos e farmacológicos para descartar psicose induzida por substâncias. O MP também destacou indícios de preservação de funções executivas complexas pelo réu após o crime, consideradas incompatíveis com a alegada abolição total da capacidade de entendimento .
“Classificar condutas finalísticas como ‘automatismos’ é subestimar a capacidade residual de entendimento demonstrada pelo réu”, diz trecho da decisão judicial que acolheu a manifestação do MP .
A Justiça determinou a realização de uma nova perícia por uma junta composta por três especialistas em psiquiatria forense . Um segundo laudo, concluído em junho de 2026, apontou diagnóstico de esquizofrenia e transtorno bipolar e manteve a conclusão pela inimputabilidade . O documento ainda será analisado pela Justiça.
Outro ponto levantado pelo advogado da família envolve o patrimônio deixado por Gleici. Segundo Rodrigo Pouso, após o crime, familiares de Daniel conseguiram a interdição do acusado em outra comarca e, posteriormente, apresentaram um pedido no inventário para que ele tivesse direito à metade dos bens e dos valores obtidos com aluguéis .
O advogado utiliza esse episódio para questionar a alegação de que Daniel não teria condições de compreender os próprios atos. “Quem está incapaz de gerir a própria vida, mas capaz de pedir metade dos bens? A Justiça precisa enxergar essa contradição”, afirmou .
A filha mais velha de Gleici, Caroline Fernandes, biomédica, também manifestou indignação nas redes sociais. Ela criticou o uso de dinheiro público para custear o tratamento psiquiátrico do padrasto em uma unidade particular em Cuiabá, que já teria custado mais de R$ 200 mil aos cofres públicos .
“Dinheiro de cofre público sendo usado para bancar colônia de férias de criminoso é, no mínimo, piada de mau gosto. Mais de R$200.000,00 do Estado gastos com tratamento de alguém com uma esquizofrenia tanto quanto seletiva?”, escreveu Caroline .
Ela questionou ainda o fato de Daniel ter relatado detalhes sobre o crime logo após os acontecimentos para, posteriormente, alegar não se lembrar do que havia feito. “Se no hospital público não há vagas, resta 1 alternativa: trate no presídio assim como todos os outros detentos. Ou esse é especial?” .
Os fatos do crime
Gleici Keli Geraldo de Souza, 42 anos, foi encontrada morta dentro da residência do casal em Lucas do Rio Verde. O laudo de necropsia apontou que ela sofreu 16 lesões de faca, além de quatro lesões compatíveis com tentativa de defesa no antebraço e na mão direita . O advogado da família afirma que foram 21 facadas no total .
A filha do casal, M.B.F., então com 7 anos, também foi atingida pelos golpes e permaneceu 22 dias internada em UTI. A menina sobreviveu e passou a viver sob os cuidados da irmã mais velha .
Daniel também tentou tirar a própria vida após o ataque, mas sofreu apenas cortes superficiais. Foi socorrido e, posteriormente, teve a prisão preventiva decretada. Ele permanece internado em uma unidade psiquiátrica particular em Cuiabá .
O acusado tinha uma consulta com um psiquiatra marcada para as 15h do dia 24 de junho de 2025 — o mesmo dia do crime. Segundo o advogado, ele havia concordado em comparecer ao atendimento .
O que esperar da Justiça
O caso ainda está em tramitação. A Justiça deverá decidir sobre a condição mental do acusado e como essa conclusão interferirá no andamento do processo. O reconhecimento de inimputabilidade não representa uma absolvição automática — pode resultar em medida de segurança, como a internação psiquiátrica por tempo indeterminado .
A família de Gleici atua no processo como assistente de acusação, representada pelo advogado Rodrigo Pouso Miranda.
O advogado reforça que a divulgação das imagens tem como objetivo garantir que a verdade seja estabelecida. “Gleici merece que a verdade seja dita com o nome dela. M.B.F. merece crescer sabendo que a mãe não foi esquecida”, escreveu .