Durante muito tempo, mulheres com aumento desproporcional de volume nas pernas e nos quadris ouviram que precisavam apenas emagrecer. Muitas passaram por sucessivas dietas, perderam peso em diferentes regiões do corpo e, ainda assim, perceberam pouca mudança justamente nas áreas que mais as incomodavam. Em alguns casos, convivem ainda com dor, sensibilidade ao toque, sensação de peso e aparecimento frequente de hematomas.
Esse quadro pode estar relacionado ao lipedema, uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, que acomete predominantemente mulheres e costuma atingir principalmente membros inferiores, embora os braços também possam ser afetados. Além da distribuição desproporcional da gordura, a presença de sintomas como dor, sensibilidade ou sensação de peso é um componente importante do diagnóstico clínico.
Na endocrinologia, olhar para o lipedema exige compreender que nem todo aumento de tecido adiposo significa simplesmente obesidade. Essa diferenciação é fundamental. Uma mulher pode ter obesidade e lipedema ao mesmo tempo, mas são condições distintas e que precisam ser avaliadas dessa forma. O lipedema não é causado pela obesidade, embora as duas condições possam coexistir e a obesidade possa agravar o impacto dos sintomas e dificultar o manejo.
Uma das características que chamam atenção no lipedema é justamente a desproporção corporal. É comum observar maior concentração de gordura nas pernas e quadris, geralmente de maneira simétrica, enquanto os pés tendem a ser poupados. Quando essa distribuição desproporcional vem acompanhada de dor, sensibilidade ou sensação de peso, a suspeita clínica se torna mais relevante. A dificuldade de redução desse tecido mesmo após emagrecimento pode ser outro sinal importante, especialmente quando está associada a dor, sensibilidade e facilidade para desenvolver hematomas.
O componente hormonal merece atenção. O lipedema ocorre quase exclusivamente em mulheres e frequentemente se manifesta ou apresenta piora em períodos de grandes mudanças hormonais, como puberdade, gestação e menopausa. Isso sugere uma participação hormonal em sua fisiopatologia, embora os mecanismos envolvidos ainda não estejam completamente esclarecidos.
É justamente nesse ponto que a avaliação endocrinológica pode contribuir. Obesidade e outras alterações metabólicas podem coexistir com o lipedema e devem ser avaliadas e tratadas quando presentes. Disfunções da tireoide, por sua vez, podem fazer parte da avaliação clínica quando houver indicação, mas não são consideradas uma causa do lipedema. Elas não devem ser apontadas automaticamente como causa do lipedema, mas podem coexistir e interferir na saúde, no peso, na composição corporal e na qualidade de vida da paciente.
Outro cuidado importante é evitar a ideia de que, por se tratar de uma alteração do tecido adiposo, basta prescrever uma dieta restritiva. O controle adequado do peso corporal é relevante para a saúde metabólica e pode ajudar a reduzir a sobrecarga sobre os membros, mas o tecido afetado pelo lipedema apresenta características próprias. Por isso, a perda de peso pode não ocorrer de forma proporcional nas áreas afetadas pelo lipedema e não necessariamente elimina a desproporção corporal ou todos os sintomas.
O diagnóstico é predominantemente clínico e deve considerar história, distribuição da gordura, sintomas e exame físico. Não existe atualmente um exame de sangue, exame de imagem ou teste genético capaz de confirmar isoladamente o diagnóstico de lipedema. Dependendo do caso, exames complementares podem ser utilizados para excluir outras condições ou avaliar diagnósticos diferenciais. A abordagem pode ser multidisciplinar, envolvendo endocrinologia e outras especialidades e profissionais de saúde.
Mais do que uma preocupação estética, o lipedema pode repercutir na mobilidade, na dor, na autoestima e na qualidade de vida. Reconhecer a doença permite substituir anos de culpa e tentativas frustradas de emagrecimento por uma investigação adequada e um plano de cuidado individualizado.
Para nós, endocrinologistas, essa é uma distinção particularmente importante: tratar o peso e a saúde metabólica continua sendo essencial quando necessário, mas é preciso compreender o que está por trás da distribuição da gordura corporal. Quando existe desproporção persistente associada a sintomas como dor, sensibilidade e hematomas frequentes, é importante considerar a possibilidade de lipedema e realizar uma avaliação clínica adequada.