Na última semana, em um voo de Brasília para Cuiabá, eu atendi uma emergência médica. Eu estava dormindo quando minha filha me acordou: “Pai, estão pedindo por um médico”. Já me vi envolvido nessa situação outras vezes, e não haviam sido experiências que possamos chamar de agradáveis, porque não havia os itens medicamentosos e materiais adequados para o profissional prestar um atendimento seguro para o passageiro (paciente) e para o médico.
Ainda sonolento, ouvi próximo de mim uma voz alta e com muita personalidade: “Moço, eu ainda sou estudante, interna de medicina, mas, se não tiver um médico presente, eu posso ajudar”. Dirigiu-se, em tom seguro, uma moça com pouco mais de 20 anos, suponho, ao comissário. Já tive um lampejo de felicidade com essa atitude da minha colega acadêmica de medicina. Gostei de imediato da sua postura forte. Levantei-me sem falar nada e dirigi-me imediatamente à poltrona da pessoa que estava passando mal. Ela me acompanhou.
Após eu obter um mínimo de informações clínicas sobre o paciente, que apresentava nível de consciência rebaixado, rapidamente tomei a decisão de removê-lo da poltrona e colocá-lo em decúbito dorsal no assoalho da parte traseira da aeronave, onde havia um pouco mais de espaço para trabalharmos nesse atendimento de suporte de vida. A minha colega, acadêmica de medicina, mostrou-se proativa, claramente atualizada e com movimentos típicos de uma aluna que está fazendo um bom curso de medicina.
Como nas outras duas vezes em que prestei atendimento de urgência em aeronave comercial, os equipamentos para atendimento de urgência e emergência eram deficientes. Faltavam cânulas de Guedel com medidas completas; havia laringoscópio, mas ausência de tubos para intubação orotraqueal; um dos torpedos de oxigênio estava vazio; havia leitor de glicemia digital, porém sem fitas para leitura da glicemia.
Tomamos as medidas iniciais cabíveis para a situação e pedi ao comissário que solicitasse ao comandante pousar no local mais breve possível. Já estávamos na metade do trajeto, e a decisão foi continuar e pousar em Cuiabá. Ao aterrissar, já havia uma equipe em solo aguardando com ambulância. O paciente já estava melhor, com recuperação da consciência, pressão arterial e saturação de oxigênio mais adequadas. Chegamos em terra bem, final feliz, mas com estresse e com a convicção de que o atendimento poderia ter sido melhor.
A rigidez com a segurança da aviação é algo admirável e justificadamente necessário. O patamar da segurança da aviação comercial é uma das coisas mais brilhantes da humanidade. Costumamos comparar muitos princípios de segurança em medicina, especialmente na anestesiologia, com os princípios da segurança na aviação: cuidados com a rotina, checagem de instrumentos, metodologias rígidas, revisões periódicas, reavaliações, uso das melhores tecnologias e atenção constante. Não há espaço para improvisos. Por que, então, esses descuidos com o atendimento de urgência e emergência médica nas aeronaves? Não sei os motivos.
Quero parabenizar minha colega acadêmica de medicina — falou-me o nome, Hayana, não tenho certeza se é assim que se escreve. Disse-me que estudava em uma cidade próxima de Brasília (não me lembro o nome) e que estava indo visitar familiares em Pontes e Lacerda (Mato Grosso). Como professor de medicina e odontologia há 34 anos, sempre ficamos felizes e aliviados quando nos deparamos com um profissional da saúde que tem vocação e está se preparando bem para a missão.
Ela perguntou-me qual era a minha especialidade. Respondi otorrinolaringologia e cirurgia bucomaxilofacial. Ela disse estar um pouco surpresa pelos recursos clínicos que utilizei no atendimento, sendo eu um especialista de áreas que, em geral, não praticam urgência e emergência clínica na rotina do dia a dia. O profissional da saúde deve estar preparado sempre, em qualquer situação e circunstância, por toda a vida, e atualizado, para prestar atendimento de urgência e emergência. É uma responsabilidade que temos de exercer com zelo e perícia.
Adalberto Novaes é médico, cirurgião dentista, cirurgião craniomaxilofacial e otorrinolaringologista, professor titular do departamento de clínica cirúrgica da UFMT.