Mais de quatro anos após a Operação Simulacrum, que investigou um grupo de extermínio composto por policiais militares, nenhum dos 69 denunciados — 68 deles militares — foi julgado. O grupo é investigado por 23 homicídios consumados e outras nove tentativas. Ao todo, seis denúncias foram oferecidas e, em apenas uma delas, a instrução processual foi iniciada, com interrogatórios dos réus previstos.
O primeiro interrogatório, marcado para o dia 20 de julho, será o do segurança R.C.S. Foi ele quem revelou às autoridades o esquema do grupo de ‘mercenários’, composto por policiais militares responsáveis por praticar execuções sumárias em Cuiabá e Várzea Grande. O segurança encontra-se inserido no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas. O promotor de Justiça César Danilo Ribeiro de Novais, da 7ª Promotoria de Justiça Criminal de Várzea Grande, confirmou que, até o momento, o único processo que teve a instrução iniciada foi o de Várzea Grande.
‘Dos processos existentes, apenas esse já contou com a oitiva de todas as testemunhas, restando apenas os interrogatórios. O R. deverá ser interrogado primeiro e, em seguida, os demais corréus. A tendência é que haja a pronúncia dos acusados, com a consequente submissão dos policiais e do depoente ao julgamento pelo Tribunal do Júri’, informou.
No processo em andamento, além de R. foram denunciados 15 policiais militares. São réus: Alisson Rocha Brizola, Anderson Gomes de Castro, André Felipe de Carvalho Campos, Cézar Adriano Prado Gomes, Dagner João Santana da Silva Oliveira, Fernando César de Oliveira, Gederson Barbosa dos Santos, Israel Xavier Girotto, Jefferson Alves do Carmo, Magno Sousa do Nascimento, Marcos Gustavo Soares de Oliveira, Nayara Rodrigues Belo, Rhodiney Marques Silva, Robson dos Santos e Rogério Aparecido Teixeira de Lima.
A Operação Simulacrum foi deflagrada em março de 2022 pela Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual. Naquela ocasião, uma escalada da letalidade nas intervenções policiais militares era registrada na região metropolitana de Cuiabá e Várzea Grande. Pelo menos um em cada três homicídios era cometido por policiais, e os boletins de ocorrência sempre traziam como relato um suposto confronto. No entanto, a quantidade de disparos efetuados pelos policiais não condizia com as situações de ‘conflito’ descritas.
Entre os exemplos citados estão casos em que o veículo utilizado pelos supostos ‘assaltantes’ foi alvejado por mais de 100 disparos de arma de grosso calibre, sem registro de um único disparo na direção oposta. As ocorrências, no geral, relatavam que os militares teriam recebido informações anônimas sobre um suposto assalto, motivo pelo qual planejaram uma abordagem e teriam entrado em confronto com os criminosos.
As investigações apontaram que R. agia como informante dos policiais. Ele passava informações sobre locais propícios para assaltos fáceis e lucrativos. No momento do deslocamento, porém, os indivíduos cooptados eram interceptados e mortos por policiais militares. O segurança particular recebia pelos serviços de cooptação das vítimas. Foi ele quem revelou toda a engrenagem do esquema criminoso à Polícia Civil e ao Ministério Público, culminando na deflagração da operação.
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