FG ASSESSORIA

“Eles querem que escritor sólido, com tutano, trabalhe de graça”

Primeira negra a ocupar uma cadeira na AML, Luciene Carvalho fala de sua obra e critica gestores

em 20/05/2019

*MidiaNews

A escritora cuiabana Luciene Carvalho, membro da Academia Mato-Grossense de Letras

 

Corumbaense de nascimento e radicada no Bairro do Porto, em Cuiabá, a poeta Luciene Carvalho é um dos mais inquietos nomes da literatura mato-grossense na atualidade. 

Primeira negra a ocupar uma cadeira na Academia Mato-Grossense de Letras, Luciene é uma poeta que injeta em seus textos muito de sua vida, de sua condição de mulher, da cor de sua pele.

O Porto - bairro pelo qual diz advogar - é uma das inspirações na obra da escritora de 53 anos. Não mais que sua mãe, Dona Conceição, já falecida, em suas palavras a maior musa, sobre quem fala e escreve com profunda reverência. 

Tanta inspiração se traduz em obras aclamadas para além das fronteiras cuiabanas. Seu último livro, “Dona”, publicado pela editora Carlini & Caniato, foi incluído na lista do vestibular da Unemat.

Mas Luciene não é só leveza poética. Ela também sabe ser densa, sobretudo quando trata da falta de apoio para a arte. Nesta semana, Luciene falou com o MidiaNews sobre sua vida, sua obra e a política cultural do Estado. Para ela, o poder público não enxerga o valor da literatura feita em Mato Grosso.

Sua crítica é especialmente mais dura em relação à política cultural no Município. "Não tem respeito, não tem investimento, não tem projeto, não tem olhar, não tem nada. Eles querem que escritor sólido, constituído, com tutano, que já mostrou o que faz, trabalhe de graça. Não existe parceria, não tem projeto", lamenta.   

 

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – A senhora é a primeira negra a assumir uma cadeira na Academia Mato-Grossense de Letras. Qual a importância simbólica de sua posse?

Eu vejo como importante a representação, que não foi uma escolha minha, me foi outorgada

 

Luciene Carvalho – Eu vejo como importante a representação, que não foi uma escolha minha, me foi outorgada. Eu sempre me encanto quando me lembro do momento, em que já indo ao meio da minha posse, entraram algumas negras de [penteado] black power. E uma delas muito baixinha com o black power enorme. E isso fez com que eu percebesse no momento da minha posse que aquelas mulheres se sentiam autorizadas a ocupar aquele espaço. É disso que estou falando. Quando o coletivo negro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) me coloca na condição de “heroína do cotidiano”, eu tenho que refletir: por que eu? Creio que existe uma necessidade de referências nesta Cuiabá, neste Mato Grosso e neste tempo. Eu acredito que essa conjunção de circunstâncias, unidas na posse, trouxe sim a importante condição de mais do que ser a primeira preta, é ser alguém que conseguiu romper os limites que foram colocados aos negros com relação às letras.

 

O Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização] deve ter 50 anos, que foi quando a população negra teve acesso à alfabetização. O negro não tinha direito. Você precisa ter algum domínio da língua. E aí começa a importância. Eu sou fruto de uma mulher negra, que é a minha mãe, que gostava de ler, e que passou isso para mim. Eu via minha mãe lendo, eu via essa coisa do ler acontecendo, eu tive estímulo. O natural das mulheres da minha geração era chegar aos 12 ou 13 anos e ser colocada para fazer pequenos trabalhos, como babá, vender Avon, qualquer coisa... E a minha mãe me deu tempo para os estudos. Havia os trabalhos domésticos, mas eu não fui obrigada a ter que dividir esse tempo. Eu tive a benesse vinda da minha mãe, de ela continuar a luta depois que meu pai morreu, para permitir que a filha dela pudesse ler, pudesse estudar. Sou fruto das escolas públicas deste Mato Grosso. Estudei numa escolinha municipal lá em Corumbá (MS), onde nasci. E naquele lugar eu li, me encantei com as primeiras histórias. Venho da oralidade poética. Eu não nasci e nem comecei escrevendo. Aos dois anos eu comecei a declamar, não me lembro de mim sem poesia. Chegava visita, eu era chamada para declamar. 

 

Mas de uma coisa eu tenho certeza: a minha mãe nunca imaginou que eu pudesse ter a ousadia de fazer daquele “supérfluo” de encantar a visita um ofício. E eu chamo de ofício porque não tem escola para poeta - ou se tem ou não se tem a qualidade.



Tags

Deixe seu comentário!


Mais Notícias