MACHISMO E POLÍTICA

Mulher, mãe e o “filho-da-puta”

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A escritora Nathalie Heinich tem um belo livro, “Estados da Mulher – A identidade feminina na ficção ocidental”, do qual pinçamos duas condições para ilustrar estados cristalizados na literatura e na vida real: o primeiro é o de mãe e o simbolismo que tanto incensa quanto conforma o comportamento imposto pela sociedade. O segundo é o estigma que carrega o estado da mulher na condição de “puta”.

Na condição de mãe, Heinich destaca a procriação que faz parte do polo matrimonial, que atrai o estado de esposa para aquele que conecta com outrem, mas afasta de si mesma:

…Com o casamento deixou de pertencer a si mesma, passando a pertencer a um marido e à sua família, a maternidade é aquilo que compensa essa alienação, antes de mais, acentuando através dessas felicidades e desses objetivos superiores que representam a experiência sensorial da procriação, a experiência psicológica de ser toda-poderosa sobre um ser inteiramente dependente, e a consciência de continuar uma linhagem permitindo estabelecer laços entre o passado, o presente e o futuro.

No estado da mulher na condição chamada de “puta”, palavra que carrega um alto valor pejorativo e estigmatizante, Heinich, citando Louis Flandrin, fala sobre as diferenças do preconceito contra a mulher nominada de “puta” entre o século XVI e hoje:

A palavra “puta”, abundantemente empregue na época, tinha valor o valor pejorativo que ainda conserva, mas por outras razões que não as de hoje. Tanto nós como nossos ascendentes do século XVI aplicamo-lo às profissionais da luxúria, mas enquanto nós lhes censuramos representarem a comédia do amor por dinheiro, eles censuravam-lhes terem dedicado a vida ao prazer sexual. A palavra aplicava-se por isso a qualquer mulher que buscasse as relações carnais pelo amor, pelo prazer, já que a mulher honesta supostamente não as procurava senão em prol do casamento, conforme os deveres do seu estado.

A realidade imita a ficção. No cruzamento desses estados, de mãe e de “puta”, não há xingamento mais estigmatizante e machista em nossa sociedade do que chamar o outro de “filho-da-puta”. Há ainda, na reverberação do preconceito, outras variantes de xingamentos que buscam rebaixar sempre a condição feminina, posto vivermos numa cultura machista que resiste pela força e pela naturalização dessa assimetria. A ignorância machista ganha mais visibilidade quando o gesto tem o protagonismo de uma figura pública masculina no mundo da política e do poder.

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O pré-candidato à Presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes, trocou xingamentos com apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) no último dia 28 de abril. As falas foram proferidas durante a sua passagem pela Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação (Agrishow) em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Em vídeos divulgados por bolsonaristas nas redes sociais é possível ouvir os gritos de “Mito”, usado por apoiadores para se referirem ao chefe do Executivo, e “Bolsonaro” enquanto Ciro Gomes se desloca por um dos espaços do evento. Na sequência, Ciro, que é opositor do presidente, questiona: “Mito? Roubou tua mãe ou come ela?”

Ciro disse que não esperem dele “sangue de barata” e vai reagir sempre quando for provocado. O que se espera não é “sangue de barata” e nem “cérebro de barata”, mas a inteligência do contraponto e, antes de tudo, o respeito à mulher. Ciro, machista como a maioria dos homens, foi direto ao xingamento contra os bolsonaristas agressores atacando mulheres-mães.

Sobrou ignorância e faltou sensibilidade política. Os bolsonaristas debocharam e xingaram Ciro, antes de tudo, pela sua condição de nordestino. Ele perdeu uma excelente oportunidade de revidar colocando-se na condição de vítima da truculência e, no seu revide, de defender os irmãos nordestinos. Limitou-se a sacar os xingamentos de um machista padrão: xingou a mãe do Outro, atacou a condição de mulher. Pronto, machão em ação, apequenado.

Um grande jornalista, meu amigo, pergunta: “porque quando é Ciro a reação da mídia é negativa e com Bolsonaro nada acontece”? É que de Ciro Gomes se espera e cobra muito mais enquanto político e ser humano. Quanto a Bolsonaro, tosco, debochado e de caráter limitado, nada se espera em termos de respeito às mulheres ou de respeito a qualquer pessoa de outro segmento social que não seja do seu interesse pessoal.

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Bolsonaro tem um histórico de ataques contra as mulheres, aliás, é uma estranha predileção que Freud pode explicar. Mas como cada episódio é jogado no Buraco da Memória, o conjunto da obra da ignorância não é avaliado por inteiro. Além disso, no caso dos bolsonaristas submissos, os xingamentos e ataques contra as mulheres são celebrados como verdadeiros gestos de coragem do Mito. Filho-da-puta é o Outro. A liberdade de expressão do ódio e do preconceito ganha essa configuração: xingar a mulher-mãe do Outro é o valor da ignorância que Bolsonaro exorta em suas falas machistas.

Bolsonaro já fez apologia ao turismo sexual no Brasil em abril de 2019:

“Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”, afirmou.

Já agrediu verbalmente mulheres jornalistas, desde o deboche contra uma jornalista que “queria dar o furo”, aos xingamentos diretos, chamando outra jornalista de “quadrúpede” e mandar outra  “calar a boca” enquanto ela fazia seu trabalho profissional de questionar as incoerências de um presidente da República.

O caso mais emblemático desta trajetória de desrespeito às mulheres e do incentivo às agressões que estas falas carregam, foi a declaração contra a deputada Maria do Rosário, em dezembro de 2014 quando ainda era deputado federal: Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque você não merece”. Ele reagiu a um discurso dela no Plenário da Câmara contra a ditadura militar que tanto defende e cuja a única crítica pública é a de que os militares durante o regime “mataram pouco”.

Nas redes sociais, Bolsonaro e Ciro certamente farão postagens de celebração ao Dia das Mães, as mesmas mulheres que são xingadas por eles de “putas” quando atacam seus filhos adversários de ocasião.

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