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A primeira consulta ginecológica é sobre confiança, não apenas sobre exames

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A primeira consulta ginecológica é um marco importante na saúde da menina e pode influenciar positivamente sua relação com o autocuidado ao longo da vida. Muitas mães e pais têm dúvidas sobre o momento ideal para essa primeira visita e quais assuntos podem ser abordados. Compreender essa etapa é fundamental para oferecer um ambiente seguro, acolhedor e informativo para a adolescente.

O atendimento ginecológico nessa fase da vida possui características próprias, diretamente relacionadas às necessidades dessa faixa etária que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), compreende adolescentes entre 10 e 19 anos. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomendam que a primeira consulta ocorra entre os 9 e 15 anos de idade.

Em algumas situações, porém, essa avaliação deve ser antecipada, como nos casos de primeira menstruação antes dos 9 anos, sinais de puberdade precoce (como o desenvolvimento das mamas antes dos 8 anos), irregularidades menstruais importantes, fluxo menstrual muito intenso, cólicas incapacitantes, dúvidas sobre o desenvolvimento corporal ou necessidade de orientação sobre higiene íntima e prevenção de doenças. Mesmo quando não há sintomas ou queixas específicas, recomenda-se que a primeira consulta aconteça entre os 13 e 15 anos, com foco na educação em saúde e na prevenção.

A consulta ginecológica da adolescente vai muito além de um atendimento técnico. Embora compartilhe alguns aspectos com o acompanhamento da mulher adulta, ela exige uma abordagem específica, respeitando as transformações físicas, emocionais e comportamentais próprias dessa fase da vida.

Durante a consulta podem ser abordados temas como puberdade, ciclo menstrual, sexualidade, métodos contraceptivos, vacinação, prevenção de infecções, autocuidado e hábitos de vida saudáveis. Também é um momento oportuno para esclarecer dúvidas e orientar a adolescente sobre as mudanças naturais do corpo.

É importante lembrar que, na adolescência, existe um descompasso entre a maturidade reprodutiva, que já está estabelecida, e o desenvolvimento do cérebro, especialmente das áreas responsáveis pelo planejamento, pelo controle dos impulsos e pela tomada de decisões, que ainda está em curso. Por isso, é uma fase em que emoções, paixões e impulsos frequentemente se sobrepõem à razão, tornando a orientação médica ainda mais relevante.

Outro aspecto fundamental é a privacidade. Para que a adolescente se sinta segura para falar sobre dúvidas, comportamento sexual, sintomas ou situações de vulnerabilidade, é recomendável que parte da consulta aconteça individualmente, mesmo quando ela está acompanhada pelos pais ou responsáveis. Esse momento reservado não exclui a participação da família. Pelo contrário, sempre que possível, a adolescente deve ser incentivada a manter o diálogo com seus responsáveis. O mais importante é que os limites da confidencialidade sejam explicados de forma clara tanto para a jovem quanto para sua família.

O exame físico, quando necessário, deve ser explicado passo a passo e jamais realizado sem o consentimento da paciente. Um dos maiores receios nessa faixa etária é justamente o exame ginecológico, o que exige do profissional uma postura acolhedora, respeitosa e sensível aos sentimentos de vergonha, medo ou constrangimento.

Se não houver urgência e a adolescente não se sentir preparada, o exame ginecológico pode ser adiado. Ainda assim, a consulta permite uma avaliação geral da saúde, incluindo peso, estatura, índice de massa corporal, pressão arterial, desenvolvimento puberal e investigação de possíveis queixas clínicas.

Mais do que uma consulta, esse primeiro encontro representa o início de uma longa parceria entre a adolescente e sua ginecologista. É nesse momento que começa a construção de uma relação de confiança, essencial para promover a saúde, a prevenção e o bem-estar em todas as fases da vida.

Dra. Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em endometriose e infertilidade na Eladium, em Cuiabá-MT.

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