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Durante décadas, Mato Grosso construiu uma história admirável de crescimento. Transformou-se em uma potência do agronegócio, tornou-se um dos maiores produtores de alimentos do planeta e consolidou uma economia que hoje figura entre as mais dinâmicas do Brasil. Esse ciclo continuará sendo motivo de orgulho para todos nós. Mas acredito que o próximo grande desafio do Estado será outro.
O próximo ciclo de desenvolvimento de Mato Grosso será urbano. Não porque o campo perderá importância, mas porque a riqueza produzida por ele precisará ser transformada em qualidade de vida nas cidades.
O desenvolvimento de um Estado não se mede apenas pelo volume de grãos colhidos ou pelo tamanho de seu rebanho. Mede-se também pela qualidade das escolas, dos hospitais, das universidades, dos parques, da mobilidade urbana e dos espaços públicos oferecidos à sua população.
Os números ajudam a compreender essa mudança. Mato Grosso já possui uma população estimada em quase 3,9 milhões de habitantes e continua entre os estados que mais crescem no país.
A maior parte dessa população vive nas cidades e depende diariamente de infraestrutura urbana, serviços públicos, transporte, comércio e lazer. O futuro econômico continuará sendo construído no campo, mas o futuro social será decidido, cada vez mais, nos centros urbanos.
Esse cenário não representa uma escolha entre campo e cidade. Ao contrário. Nunca o agronegócio dependeu tanto de cidades bem estruturadas.
O produtor rural precisa de hospitais de excelência, universidades capazes de formar profissionais qualificados, logística eficiente, tecnologia, serviços especializados e mão de obra preparada. Da mesma forma, as cidades dependem da riqueza produzida no campo para gerar empregos, arrecadação, investimentos e oportunidades.
Basta observar o que aconteceu nas últimas décadas. Cidades como Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste, Nova Mutum e Rondonópolis cresceram impulsionadas pela força da produção agropecuária.
O desafio agora deixou de ser apenas crescer. Passou a ser crescer bem. Isso significa planejar bairros antes da expansão desordenada, preservar áreas verdes antes que desapareçam, investir em mobilidade antes que os congestionamentos se tornem permanentes e proteger rios e nascentes antes que sua recuperação se torne muito mais cara.
Como contador e empresário, aprendi que toda organização enfrenta momentos de transição. Empresas que continuam administrando estruturas pequenas depois de se tornarem grandes acabam perdendo eficiência. Com os estados acontece exatamente o mesmo. Mato Grosso já não é apenas uma fronteira agrícola. É uma potência econômica que precisa construir cidades compatíveis com sua nova dimensão.
Isso exige uma mudança de mentalidade. Precisamos discutir onde crescerão nossas cidades nas próximas décadas, como protegeremos o Rio Cuiabá e tantos outros cursos d’água, quantos parques urbanos queremos oferecer às futuras gerações e como integrar desenvolvimento econômico com qualidade de vida. Essas não são pautas secundárias. São decisões que determinarão a competitividade do Estado nas próximas décadas.
Os estados mais desenvolvidos do mundo compreenderam que riqueza e urbanismo caminham juntos. Empresas escolhem investir onde conseguem atrair talentos. Famílias escolhem viver onde encontram segurança, boas escolas, espaços públicos de qualidade e cidades agradáveis. O desenvolvimento econômico do século XXI dependerá cada vez mais dessa capacidade de transformar crescimento em bem-estar.
Mato Grosso já demonstrou ao Brasil que sabe produzir riqueza. Agora precisa mostrar que sabe transformar essa riqueza em cidades mais organizadas, mais verdes, mais inteligentes e mais humanas. O sucesso das próximas décadas não será medido apenas pelas safras recordes, mas pela capacidade de oferecer qualidade de vida às pessoas que fazem esse Estado crescer todos os dias.
RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.